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PARA EVITAR PANDEMIAS FUTURAS, CADEIA GLOBAL DE ALIMENTOS DEVE SER REVISTA

Por: Edison Veiga

Não é só o peixe que morre pela boca.

Reino Unido, anos 1990. Após comer carne bovina, algumas pessoas começaram a apresentar sintomas de uma doença neurodegenerativa: o mal de vaca louca – ou doença de Creutzfeldt-Jakob, uma encefalopatia que afeta o gado doméstico.

Sudeste Asiático, 2005. Uma grande epidemia de gripe aviária assustou o mundo.

Abril de 2009, México. Surgiram os primeiros casos de gripe suína, depois rebatizada de gripe A, ou H1N1. O vírus se espalhou por todo o mundo: 75 países registraram casos e a Organização Mundial da Saúde declarou que o planeta vivia uma pandemia.

Março de 2014. A Organização Mundial da Saúde reconheceu que Guiné vivia um surto de ebola. Era a terceira epidemia da doença em países africanos desde os primeiros casos, em 1976.

Mercado da cidade de Wuhan, China, fim de 2019. Acredita-se que ali tenha sido o marco zero da contaminação do novo coronavírus em humanos. De lá para cá, a doença se espalhou por todo o globo e tornou-se motivo para apreensão mundial.

Estes são apenas alguns exemplos da longa história da humanidade contra as epidemias, mas, em comum, estão problemas na manipulação de animais utilizados para alimentação. São bois tratados com ração de origem animal, são frangos confinados em gaiolas diminutas, são porcos manejados em escala industrial.

“O que ocorre hoje não é uma novidade”, diz ao TAB o engenheiro químico Luiz Gustavo Lacerda, professor e pesquisador de alimentos na Universidade Estadual de Ponta Grossa, no Paraná. “Há muito é acompanhada a associação de animais a enfermidades. A gripe aviária, por exemplo, surgiu em frangos contaminados com vírus presentes nas fezes de animais da gaiola de cima. A intervenção humana acaba alterando a saúde dos animais”, conclui.

A pesquisadora Marion Nestle, professora de nutrição, alimentação e saúde pública na Universidade de Nova York (EUA) pensa parecido. “Estamos observando o resultado da perda de habitats de animais selvagens, o uso de animais selvagens para a alimentação humana, vendas destes em feiras e mercados [de produtos fresco] e a abundância de animais criados de modo intensivo para a alimentação”, explica. Ela é autora de, entre outros, “Uma Verdade Indigesta”, em que discute como empresas de alimentos, bebidas e suplementos priorizam o lucro em detrimento da segurança alimentar. “A soma de tudo isso facilita a disseminação de doenças bacterianas e virais entre os animais – e aumenta o risco de que essas doenças cheguem aos seres humanos”, analisa.

De acordo com nota divulgada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente no início do mês, as doenças transmitidas de animais para seres humanos estão em ascensão e pioram à medida que habitats selvagens são destruídos pela atividade humana. “Cientistas sugerem que habitats degradados podem incitar processos evolutivos mais rápidos e diversificar doenças, já que os patógenos se espalham facilmente para rebanhos e seres humanos”, ressalta o texto.

Se crises são momentos de redefinições, talvez seja uma boa hora para a humanidade aproveitar a quarentena e repensar a sustentabilidade da cadeia global de alimentos.

“Imagine um ambiente cruel cercado de estresse, diversidade de animais selvagens em condições de saúde muitas vezes duvidosas. Pois este cenário é favorável ao surgimento de novas doenças.”

Luiz Gustavo Lacerda, professor e pesquisador de alimentos na Unidade Estadual de Ponta Grossa (PR)

Mikael Linde, especialista em marketing agroalimentar, desenvolvimento rural e pesquisador da Universidade Livre de Bolzano, na Itália, também acredita que cadeia global de alimentos deve ser revista. “O modelo industrial de produção de alimentos se colocou como alternativa para supostamente trazer segurança alimentar – tanto de acesso quanto nutrição, preço e padronização. Em parte, conseguiu isso”, diz. “Por outro lado, esse modelo causa impactos ambientais ao se impor como via única”.

O que fazer? “Na minha opinião, a resposta para essa questão envolve uma série de fatores que atualmente convergem mais a política, comportamento social e cultural”, diz Lacerda. “A geração à qual eu pertenço, por exemplo, cresceu sem a preocupação da destinação de plásticos que embalavam os alimentos. Como eu iria imaginar, quando criança, que isso iria parar no mar? Hoje, muitos jovens já têm essa consciência ou, pelo menos, a escola ensina, mas não o suficiente. Ainda sonho com um sistema político que leve às crianças, por exemplo, o conhecimento e a importância da cadeia produtiva de alimentos. Vou além: incluam-se suas consequências ao planeta. Esse tipo de vivência poderia formatar menores adultos no futuro. Melhores governantes, inclusive.”

Controlar para não contaminar

Na opinião de especialistas, a humanidade está diante de uma oportunidade de rever toda a cadeia produtiva, de forma a torná-la mais sustentável, mais ética e mais controlada. “É preciso se reconectar com a origem do alimento. As práticas industriais nos afastaram completamente desses conhecimentos. Quantas crianças não dizem que o leite vem da caixinha?”, provoca Linder. “Crianças não fazem mais a relação entre o produto e a origem desse produto.”

Nesse sentido, o papel da indústria seria trabalhar com transparência e controlar todas as etapas do processo produtivo para que o consumidor conheça toda a história daquilo que está no seu prato. “Acredito que os sistemas de gestão de produção e de qualidade levados a rigor podem ajudar muito. A chave para a nossa segurança é o controle total da cadeia produtiva, incluindo logística e o armazenamento”, defende Lacerda.

Algumas grandes empresas estão atentas a esse contexto. Multinacional belga do ramo alimentício, a Puratos realiza uma pesquisa cm 17 mil consumidores derivados de seus produtos a cada três anos, em todos os continentes. Na edição cujos resultados foram divulgados no ano passado, a transparência foi um ponto ressaltado pelo brasileiro. Dentro os entrevistados, 93% afirmaram ter o hábito de ler rótulos. Mas apenas 38% disseram ter interesse na origem dos ingredientes e 26% demonstram estar preocupados com a sustentabilidade.

“Estes números tendem a crescer”, afirma ao TAB a diretora geral da unidade brasileira da empresa, Simone Torres. “Fica clara a nossa responsabilidade por toda a cadeia produtiva, independentemente dos desafios que isso representa. E os desafios são vários: de custo, disponibilidade de matéria-prima rastreável e produzida com respeito ao meio ambiente e às comunidades, além da ambiguidade da disponibilidade de alimentos no mundo”, completa.

Em meio a tantos obstáculos, está o objetivo de tornar a produção mais autêntica e, ao mesmo tempo, respeitosa aos processos contemporâneos. Linder acredita que um equilíbrio é possível. “Dos mercados tradicionais às cadeias industriais, passando pelas produções artesanais, sempre há os riscos. Há métodos que foram estabelecidos ao longo do tempo e, com isso, conseguiram firmar mecanismos que eliminam agentes patógenos”, comenta ele. Como exemplo, o especialista lembra do leite cru utilizado na produção de alguns queijos. Estigmatizado por leis sanitárias brasileiras há algum tempo, hoje ele é visto como produto gastronômico. “Está claro que a produção de queijo a partir de leite cru é viável desde que se utilizem alguns elementos e sejam adotados procedimentos como a maturação do queijo por determinado período. Isto permite que os agentes nocivos ao homem sejam eliminados.”

O engenheiro químico Lacerda também acredita que o momento permite repensar a quantidade de consumo de carne. “As condições sanitárias de abate se apresentam nas mais diversas condições possíveis – muitas delas sendo um verdadeiro desrespeito. Por outro lado, temos uma forte vertente mundial, científica inclusive, nos mostrando como a diminuição do consumo de carnes em geral pode trazer benefícios à nossa saúde – e ao planeta, com a diminuição da geração de gases e tratamentos de efluentes, por exemplo.”

Recomendações alimentares atuais para a saúde tanto das pessoas quanto do planeta exigem menor consumo de carne e maior consumo de verduras, legumes, frutas, grãos e nozes. Isso ajudaria.
Marion Nestle, professora de nutrição, alimentação e saúde pública na Universidade de Nova York (EUA)

Desperdício

Um nó na atual cadeia é a quantidade de perdas em todo o processo. “O mecanismo utilizado atualmente por nós é, por hora, insustentável. Somente com a agricultura, utilizamos 75% da água doce e um terço da superfície da Terra. Some-se a isso uma estimativa de população mundial de 10 bilhões de pessoas até 2050. O desperdício de alimentos chega a 30%”, diz Lacerda. “Precisamos da união de setores da economia e áreas como engenharia de alimentos, biotecnologia, tecnologia da informação e química para melhorar continuamente a produtividade. Não há como tornar isso possível sem amplo incentivo do governo nas pesquisas, por exemplo.” O engenheiro químico acredita que a mudança geral de comportamento poderia auxiliar a adiar o esgotamento dos recursos naturais.

“A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, a FAO, adverte, há anos, sobre o fato de que um terço de todos os alimentos que produzimos — 1,3 bilhão de toneladas por ano — é perdido ou desperdiçado”, lembra Torres, da Puratos. Estas perdas têm também uma grande dimensão ética e ambiental: enquanto 821 milhões de pessoas no mundo estão em estado de insegurança alimentar, um terço de toda a produção alimentar do mundo é desperdiçada diariamente, segundo os dados da FAO. Para ela, a indústria de alimentos precisa ter um papel de destaque na equação destes problemas.

A melhora na eficiência de toda a cadeia produtiva pode evitar a maior parte do desperdício, segundo Linder. “Precisamos pensar cada vez mais em métodos sustentáveis, trabalhar de formas mais regionalizadas, substituir modelos convencionais e melhorar modelos tradicionais”, diz. “Se não tivermos políticas adequadas, daqui a pouco vai estar todo mundo comendo soja transgênica banhada de Roundup [marca famosa de herbicida].”

Na reinvenção da cadeia produtiva de alimentos, o consumidor precisa ter alguns direitos básicos, acreditam os especialistas. Primeiro, direito à informação — saber exatamente o que está no seu prato. “Também poder escolher o alimento que seja mais saudável, nutritivo, gostoso e tenha condição de conhecer a origem do alimento, pagando um preço justo ao produtor”, enumera Linder. “Este me parece o caminho mais sensato.

Quando a crise do novo coronavírus passar, talvez o mundo esteja pronto.

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